Pão do Vaticano – A história

Há uns tempos atrás relatei a minha aventura com o Pão do Vaticano: uma espécie de pão doce que começa com uma porção de massa que alguém nos entrega e que, depois de seguirmos passo a passo a receita durante quase uma semana, dividimos também em porções para dar a outros e cozinhamos a nossa porção. Nessa altura andei a pesquisar pela Internet qual seria a história ou origem desta receita, que quase parece uma daquelas correntes dos e-mails, mas da pesquisa resultou muito pouco.

Nos últimos dias de Março a Isabel comentou, nessa mesma publicação, que a receita era muito parecida com o Bolo do Padre Pio. Assim dei início a uma nova pesquisa, desta vez procurando a história do Bolo do Padre Pio, e de tudo o que li a explicação Na Cozinha da Margo foi a que me pareceu mais completa:

«O Bolo da Fortuna ou Bolo do Padre Pio é muito antigo, mais de século de existência. Às vezes pode ser confundido com o bolo da sorte dos Três Reis Magos, que também leva na mistura frutas cristalizadas.  Dizem que tudo começou com um pedaço de  fermento amassado pelo próprio Padre Pio (capuchinho italiano, que acabou virando santo pelas  curas que fazia). Essa receita foi correndo o mundo e acabou caindo de paraquedas no Brasil, por algum imigrante ou descendente europeu e popularizou-se, principalmente pelo sentido religioso. Então a ideia era uma “corrente” para ir alimentando e compartilhando esse fermento com as pessoas as quais você desejava boa sorte. Com a parte que você ganharia, era feito um bolo com uma fermentação natural ao longo de 3 dias! Depois disso, a preparação do bolo renderia mais 7 dias. Usar batedeira? Nem pensar. Como os ingredientes iniciais são sempre açúcar e farinha, nunca se estragava.»

Entretanto, no fim de semana passado, recebi um novo comentário, desta vez da Maria, partilhando uma receita, de forma que quem não possua a massa “de base” possa dar início a uma corrente de partilha também.

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O Pão do Vaticano

Quem já ouviu falar no Pão do Vaticano? Eu desconhecia tal receita até que, na Segunda-feira da semana passada, a Sofia apareceu-me em casa com uma massa dento de um recipiente e uma receita num papel. Nesse dia não fui ao ginásio e ela ia logo depois desta paragem. Disse-me que tinha de pegar naquela massa e seguir as instruções da receita descrita na folha “à risca”, como o tipo de materiais a usar e os dias (sim, dias) de adição de cada ingrediente, e que o pão traria sorte a quem o fizesse. E lá seguiu ela para o ginásio.

Li então com mais atenção a receita de uma ponta a outra:
– Teria de começar o pão naquele dia, pois à massa que a Sofia me trouxe tinha de juntar, na Segunda-feira, 250 g de açúcar e não podia mexer.
– Na Terça-feira tinha de ferver 250 ml de leite, deixar arrefecer e juntar à “mistura” anterior, novamente sem mexer.
– Na Quarta-feira era dia de juntar 250 g de farinha, sem mexer.
– Na Quinta-feira tinha de mexer todos os ingredientes.
– Na Sexta-feira tinha de juntar 250 g de açúcar, 250 ml de leite fervido e arrefecido, 250 g de farinha, mexer tudo e dividir em 4 porções. Dessas três das quatro porções teria de dar a três pessoas diferentes, tal como fez a Sofia.
– No sábado tinha de juntar à minha porção mais 250 g de farinha, meia colher de sopa de bicarbonato de sódio, meia colher de sopa de fermento em pó, 3 ovos, extracto de baunilha, 250 ml de óleo, canela em pó e alguns ingredientes à escolha (que no meu caso foram raspas de chocolate). Depois ao colocar no forno só tinha de pedir o meu desejo.

Ao longo da semana fui registando, passo a passo, todo o processo e no Domingo partilhei o Pão do Vaticano na hora do café com a família.

Andei ainda à procura da origem/história deste pão na Internet, mas não encontrei nada, a não ser os registos de experiências de outras pessoas que também o cozinharam. Talvez a associação da receita ao Vaticano seja pelo aspecto da partilha. Não me quer parecer que algures na história da humanidade um Papa tenha iniciado esta corrente de partilha gastronómica, começando ele próprio a juntar e mexer, cada dia da semana, um ingrediente, para depois partilhar a massa com a população, e assim sucessivamente durante séculos e séculos 😛

Duas características que associo também a esta receita são a paciência e o respeito. A paciência por só poder juntar cada ingrediente no respectivo dia, durante seis dias, e o respeito por todas as restrições apresentadas nas notas da receita. Pelo menos eu senti-me várias vezes tentada a amassar os ingredientes dos três primeiros dias assim que os colocava na taça, ou a mexer a massa com as mãos (principalmente quando ficou com uma consistência de argamassa na sexta-feira, antes de juntar o leite).