O talento do avô, o restauro da caseirinha

“Tanoeiro: O que conserta ou faz tonéis, tinas, dornas, barris, pipas e outros vasilhames semelhantes”.

O meu avô, pai da minha mãe, numa de entre as suas muitas profissões e ocupações, era tanoeiro. Agora que penso nisso, era sem dúvida um homem de muitas ocupações. Foi tanoeiro, apicultor, criou porcos e ainda cavou muita terra para plantar batatas, e outras coisas mais, juntamente com a minha avó.

É o 6º de 11 filhos (na foto é o segundo da fila de trás) e cá na terra, toda a gente o conhecia por Zita, apesar de esse não ser o nome de nascimento dele. Aliás, muitos ainda hoje devem pensar que esse é o seu verdadeiro nome e confesso que até eu achei estranho quando percebi que se chamava José. Para mim, e até ao momento dessa descoberta, o primeiro nome era Avó, o último Zita. Não tinha muito que enganar.

Os meus avós maternos sempre foram muito próximos, porque morar literalmente na porta ao lado facilita a tarefa de ser um avô presente na vida dos netos. Talvez também os valores e a importância do conceito de família que lhes foram transmitidos pelos seus pais e as condições modestas (digamos assim) com que foram criados tenham contribuído para isso. E, apesar do enorme “beicinho” registado no foto (ou estava a fazer uma birra ou estava só encandeada pelo sol), foram sempre os melhores avós que conseguiram e podiam ser.

Agora que penso em retrospectiva, parece-me que sempre o conheci o meu avô velhinho e, claro, sempre acompanhado da sua bengala. Toda a sua vida foi um homem bastante exigente, um homem de grande Fé e que sempre gostou muito da sua família. E penso que estas duas últimas coisas bastavam para ele: a Fé e a família. Aliás, uma das muitas frases que ele costumava dizer-nos era precisamente “o orgulho do avô são os filhos e os netos”.

Mas voltemos ao assunto inicial. O meu avô era tanoeiro de profissão. Agora, enquanto escrevo, apercebo-me que nunca lhe perguntei por que motivo foi para esse ofício, ou com quem aprendeu ele essa arte.

Durante anos da sua vida fez e consertou barris e pipas (e talvez outra coisas mais, também relacionadas com a profissão, e que eu desconheça) para algumas das grandes casas de vinhos da zona, como a Adega Venâncio da Costa Lima, em Quinta do Anjo, a Adega Xavier Santana, em Palmela, a Adega José Maria da Fonseca, em Azeitão, e também para a Casa Quaresma, em Quinta do Anjo. Além disso fazia peças mais pequenas, do tipo decorativas, desde garrafas, a baldes e pipas. Se fazia para fora não sei, mas pelos menos na casa dos meus pais e dos meus avós eu podia encontrá-las.

No verão de 2012, uns meses depois do meu avô ter falecido, decidi que iria restaurar duas peças que estavam guardadas na casa das máquinas/ferramentas que temos no quintal (não me recordo do motivo pelo qual foram ali guardadas, mas certamente que terá sido por uma questão de espaço). Se ali continuassem só iriam ficar mais degradadas com a chuva e a condensação que por vezes caíam sobre elas, uma vez que o telhado da tal casinha, na altura, já não estava em boas condições. Se ao menos me tivesse lembrado mais cedo de as restaurar, talvez ainda tivesse recebido umas dicas para o fazer com o devido preceito de tanoeiro, mas ainda assim desenrasquei-me.

A madeira estava manchada por causa da água e haviam zonas marcadas com buracos do bicho da madeira. Os arcos de metal já há muito que não se mantinham no devido lugar e, para contornar essa situação, o meu avô já lhes tinha colocado uns pequenos pregos/grampos para impedir que saíssem do sítio.

Comecei por limpar e escovar o pó, retirei metade das cintas, lixei ligeiramente para que a madeira ficasse um pouco mais uniforme (portanto, menos manchada) e depois repeti o mesmo processo para a outra metade. Em seguida dei umas boas “pinceladelas” de um produto para matar o bicho e tratar da madeira.

Se estes pequenos barris aguentam vinho ou outro líquido no seu interior? Tenho a certeza que não, nem sei se alguma vez aguentaram, mas funcionam na perfeição enquanto peças decorativas na minha sala.

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O restauro não é recente, porque na altura ainda não existia a Carolina Caseirinha, mas achei que este seria momento ideal para esta partilha, sobretudo porque ambos os meus avós comemorariam os seus aniversários de vida neste mês. Primeiro a minha avó, no dia 5, e depois o meu avô, precisamente hoje. E, se ainda por cá andassem, celebraríamos com eles os seus 83º e 88º aniversários.

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